No Protheus, a DUIMP não é tratada pelo módulo de Compras (SIGACOM), ela vive no módulo de importação SIGAEIC, que é um subsistema separado. Se a sua empresa processa importação por Documento de Entrada / Nota Fiscal manual, não há vínculo automático com a DUIMP, é tudo manual. E há um pré-requisito que pega muita gente: a capacidade DUIMP não veio num release único, foi entrando por patches sucessivos, então um Protheus sem atualização recente simplesmente não é DUIMP-capaz. O relógio é o cronograma oficial de desligamento da DI (versão 23, publicada em 04/08/2026), que fecha em 01/12/2026, com a ressalva do próprio cronograma: as datas valem "caso a validação pelo setor privado não tenha indicado problemas sistêmicos impeditivos". Quando a integração quebra, o motivo quase nunca é "a DUIMP é difícil", é sempre uma costura entre sistemas que não compartilham o mesmo modelo de dados: certificado/permissão do Portal Único, dado de carga do agente de carga, campo faltando no dicionário customizado, parâmetro de ambiente, ou o layout do arquivo do despachante. Para um médio porte sem TI de comex, DUIMP-no-ERP não é um botão de liga/desliga, é um projeto.
1. Onde a DUIMP vive no Protheus: SIGAEIC, não SIGACOM
Este é o mal-entendido de base. O dia a dia de compras (solicitação, cotação, pedido: o mundo SC1/SA5) roda no SIGACOM. A declaração aduaneira roda no SIGAEIC (Easy Import Control), o módulo de controle de importação. São dois subsistemas separados, ligados de forma manual, não uma esteira única.
A TOTVS é explícita: "O módulo Compras (SIGACOM) não possui integração para gerar DUIMP. Atualmente, o processo é tratado exclusivamente pelo módulo EIC." Quem não roda SIGAEIC e faz importação via Documento de Entrada (MATA103) ou Nota Fiscal Manual (MATA910) fica sem qualquer ligação com a DUIMP, o número é digitado à mão.
Implicação: ter Protheus não é ter DUIMP. É preciso ter o SIGAEIC licenciado e configurado. Uma empresa com Protheus de Compras "puro" tem zero caminho de DUIMP a não ser digitação manual.
2. O que o SIGAEIC realmente faz
Quando está no ar e configurado, o SIGAEIC integra com o Portal Único em várias frentes:
- Sincroniza o Catálogo de Produtos: rotina dedicada para levar o cadastro de produtos do ERP ao Catálogo do Portal Único, inclusive via importação de planilha, com registro de atributos por NCM.
- Integra o processo de DUIMP: por registro, o usuário escolhe iniciar a integração ou deixar "pendente de integração". Ou seja, o envio é opt-in por processo, não automático.
- Débito automático de tributos: II/IPI/PIS/COFINS e o pagamento centralizado (PCCE) podem ser debitados no registro da DUIMP, mas a chave é configurada dentro do Portal Único, não só no Protheus, é um passo cruzado entre sistemas.
- Vincula a carga (CCT): o campo
W6_PRCARGA(Presença de Carga) carrega o número do CE Mercante no marítimo; é assim que a declaração se amarra ao Siscomex Carga. - Anuência (LPCO): cada órgão anuente (MAPA, Anvisa…) tem seu próprio calendário de DUIMP; a anuência flui pelo módulo LPCO.
- Arquivo do despachante: uma rotina separada importa o TXT do despachante (despesas de importação, numerário, nota de entrada). É um terceiro canal de integração, além da API do Portal Único e da sincronização do catálogo.
3. Versão importa: você pode simplesmente não estar pronto
A capacidade DUIMP não chegou num release único. Entrou por patches sucessivos, um recurso de cada vez, e cada recurso tem a sua própria versão mínima, documentada no artigo TOTVS correspondente. Os itens que costumam faltar num build mais antigo:
- suporte-base à DUIMP no SIGAEIC;
- inclusão de atributos da DUIMP;
- CFOP nos itens da DUIMP;
- configuração de débito automático de tributos;
- o alargamento do campo do número do documento de importação (
CD5_NDI) para 15 caracteres, para caber o identificador mais longo da DUIMP.
A pergunta prática para o seu parceiro TOTVS não é "estou atualizado?", é "qual é a versão mínima de cada um destes cinco itens, e em qual estou?".
Tradução: uma empresa num Protheus antigo e sem patch não é DUIMP-capaz até um projeto de atualização acontecer, que já é, por si, um evento de escala consultoria. A prontidão começa por uma auditoria de versão, não por "ligar um parâmetro".
4. Por que a integração quebra: tudo acontece nas costuras
Os erros conhecidos da integração DUIMP-Protheus, quando você olha a causa-raiz, seguem um padrão só: cada um mora numa junção entre sistemas que não falam a mesma língua de dados. Em linguagem simples:
| Sintoma | Causa real | Onde é a costura |
|---|---|---|
| Erro token 422 ao integrar | erro semântico no payload ou problema de permissão do certificado e-CPF (o titular precisa ser representante legal habilitado para aquele CNPJ no Portal Único) | ERP ↔ certificado/permissão do governo |
carga.identificacao vazio | o campo W6_PRCARGA não foi preenchido com o CE Mercante antes do envio | ERP ↔ dado de carga do agente de carga |
campo EVI_DEMERC não encontrado | o campo (DE Mercosul) está faltando no dicionário SX3 do próprio cliente, o patch adicionou, a customização não acompanhou | deriva do dicionário customizado do cliente |
| "forEach of undefined" nos atributos | parâmetros MV_EIC0072/0073/0074 (URLs do Siscomex para o arquivo de atributos) em branco/errados | parâmetro de ambiente ↔ Portal Único |
| layout TXT Bysoft/Ellas teve de mudar | o arquivo do despachante precisou passar a carregar número + versão da DUIMP, mudança coordenada entre cliente e despachante | ERP ↔ software do despachante |
Nenhum desses é "DUIMP é complicado no abstrato". Cada um é um handoff específico onde o dado de um lado não estava onde o outro esperava. (Detalhe útil: o status "Integração ERP: Pendente" costuma ser um estado normal, controlado pelo usuário, o SIGAEIC deixa você escolher não disparar a integração ainda, e não necessariamente um defeito.)
A lição para quem vai integrar: a competência necessária cruza três mundos: customização ADVPL do Protheus, mecânica da API do Portal Único, e coordenação com o software do seu agente de carga/despachante. É projeto multiparte, não checkbox.
E o alvo se move. Duas mudanças de 2026 mostram que a integração não é entregável de uma vez:
- CNPJ alfanumérico (Notícias Siscomex Importação 076/2026 e 077/2026, de 20 e 23/07/2026). A base do CNPJ e os sistemas de comércio exterior, Portal Único incluído, ficaram indisponíveis das 7h de 25/07/2026 às 7h de 27/07/2026 para a migração, com procedimentos de contingência autorizados na janela. Toda validação de CNPJ escrita como "14 dígitos numéricos" no ERP, no Catálogo de Produtos ou no cadastro de Operador Estrangeiro é candidata a quebrar.
- Destaque de IBS/CBS na DUIMP a partir de 01/01/2027 (Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 4/2026, de 31/07/2026). O cronograma foi partido em três lotes: NF-e, NFC-e e CT-e em 03/08/2026, e a DUIMP e a NF-e de importação de bens materiais só em 01/01/2027. Na prática, a nota fiscal do seu ERP muda numa data e a declaração de importação muda em outra, com quase cinco meses de distância.
5. A API do Portal Único: é projeto de software, não parâmetro
Por baixo de tudo está a API do Portal Único, e ela é uma integração REST de verdade:
- Autenticação por certificado (e-CPF/e-CNPJ), não OAuth2: você autentica com o certificado, recebe um JWT + token CSRF, e usa nas chamadas seguintes. TLS 1.2+, JSON e XML (alguns serviços só XML com XSD).
- Catálogo versionado: incluir produto, gerar nova versão e retificar são operações distintas, cada uma com seu verbo.
- Modelo de eventos (webhooks): você registra um endpoint HTTPS e recebe eventos; timeout duro de 3,5 segundos para responder (o processamento pesado tem que ir para fila assíncrona), e a assinatura se remove sozinha após 30 dias só de erro. Entre os eventos há um conjunto específico e enumerável de eventos SEFAZ/ICMS da DUIMP (registro, retificação, desembaraço, cancelamento, liberação, decisão judicial, entrega), relevante porque o ICMS é evento, o que torna o acompanhamento automatizável.
- Sinal de dificuldade de build: existe biblioteca open-source só para modelar as classes XSD/JSON-Schema dessa API, a existência dela já diz que fazer à mão dá trabalho suficiente para alguém manter um gerador. Não é wrapper fino.
Ou seja: build interno puro contra a API crua (cliente REST, auth por certificado, receptor de webhook com ack sub-3,5s, lógica de versionamento de catálogo) é viável só para quem topa bancar engenharia de software, perfil de custo diferente de "configurar parâmetros do ERP".
6. Outros ERPs: todo mundo converge para "ERP + camada especialista"
- SAP: a funcionalidade nativa de import/export do Global Trade Services (GTS) localizado para o Brasil entrou em modo de manutenção, sem solução sucessora (comunicado da própria SAP, dez/2024). Clientes SAP no Brasil não podem contar com o SAP nativo para prontidão DUIMP, são empurrados para pontes de terceiros.
- Senior: não dirige a DUIMP nativamente; gera a Nota Fiscal de Importação referenciando um número de DUIMP/DI vindo de fora, e a própria documentação manda parear com um sistema de comex especialista via webservices.
- Camadas especialistas: Conexos (GUEPARDO), BySoft, Sigraweb, Becomex etc. sentam entre o ERP e o Portal Único, falando as APIs de DUIMP/Catálogo/LPCO e reconciliando de volta no ERP. (As porcentagens de automação que anunciam: "60% dos dados", "reduz digitação em 80%", são alegações de fornecedor, sem auditoria; não repita como fato.)
O padrão é unânime: ninguém afirma que o ERP sozinho (SAP, Senior ou Protheus sem o add-on SIGAEIC) resolve a DUIMP de ponta a ponta. Até a resposta da própria TOTVS (SIGAEIC) é, arquiteturalmente, um módulo acoplado, não o núcleo de Compras. A direção do mercado é uma camada de comex dedicada, não mais investimento nativo no ERP.
Vale marcar o que essa conclusão não diz. Todas essas opções, do SIGAEIC ao build interno, pressupõem uma coisa só: que a DUIMP é sua para registrar. Nem sempre é, e o §7 fecha por aí.
7. Quanto custa e o caminho realista para o médio porte
Preço: não há preço público de projeto DUIMP. É tudo sob consulta, tanto do lado TOTVS quanto do lado das camadas especialistas, e os valores de licença e implantação que circulam em busca aberta não são tabela de fornecedor, então este guia não publica número. O que dá para dizer com segurança é a forma do custo: são três linhas somadas, a atualização e a licença do ERP, o projeto de configuração ou a assinatura da camada especialista, e o tempo interno de montar o Catálogo de Produtos. A terceira é a que estoura prazo, e é a única que não dá para terceirizar sem terceirizar a importação inteira.
O caminho realista, para uma indústria de médio porte sem TI de comex dedicada:
- Auditar/atualizar o Protheus para um patch DUIMP-capaz e licenciar o SIGAEIC se ainda não tiver.
- Tratar a construção do Catálogo de Produtos (atributos por NCM) como a tarefa de maior prazo, comece por ela, antes de se preocupar com a fiação da API. (Ver Catálogo e atributos DUIMP.)
- Orçar consultoria parceira TOTVS para configurar as rotinas/parâmetros DUIMP do SIGAEIC (
MV_EIC*) ou contratar uma camada especialista (Conexos/GUEPARDO, BySoft, Sigraweb) para sentar entre o ERP e o Portal Único. - Coordenar o software do despachante, mudanças de layout de arquivo (como o caso Bysoft/Ellas) não são unilaterais.
Build 100% interno contra a API crua só faz sentido para quem vai financiar engenharia de software de verdade.
Existe um quarto caminho, que os passos acima escondem: a DUIMP só é sua para registrar se você for o importador. Numa importação por encomenda, quem registra a DUIMP, monta o Catálogo de Produtos e responde pelos atributos por NCM é a trading, no CNPJ dela. Você recebe o material com nota fiscal de venda no mercado interno, e o seu Protheus trata aquilo como compra doméstica: sem SIGAEIC, sem certificado no Portal Único, sem layout de despachante para combinar. Na importação por conta e ordem, a DUIMP sai no seu CNPJ, mas quem opera o registro e a integração é o terceiro contratado.
Nos dois casos o projeto de ERP deixa de ser pré-requisito para importar e vira uma decisão separada, de volume: você integra quando o seu próprio fluxo de declarações justificar o investimento, não porque o cronograma da DI mandou.
Perguntas frequentes
A DUIMP é gerada pelo módulo de Compras do Protheus?
Meu Protheus está atualizado o suficiente para DUIMP?
Por que minha integração DUIMP dá erro?
Dá para integrar a DUIMP sozinho, sem consultoria?
E quem usa SAP ou Senior?
Preciso ter a DUIMP integrada no ERP para conseguir importar?
Até quando dá para continuar na DI?
Glossário
- SIGAEIC
- módulo de controle de importação do Protheus (Easy Import Control); onde a DUIMP é tratada.
- SIGACOM
- módulo de Compras do Protheus; não gera DUIMP.
- Portal Único Siscomex
- plataforma do governo onde a DUIMP é registrada; expõe APIs REST.
- CE Mercante
- número que identifica a carga no marítimo; amarra a declaração ao Siscomex Carga.
- Webhook
- chamada que o Portal Único faz ao seu sistema quando um evento ocorre (ex.: desembaraço, evento de ICMS/SEFAZ).
- Camada especialista
- software de comex (Conexos, BySoft, Sigraweb…) que fica entre o ERP e o Portal Único.