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Como saber se o preço do seu fornecedor está caro: compare o FOB da cotação com o que o Brasil paga naquela NCM (2026)

Atualizado em 11/08/202613 min de leitura

Resposta curta

Dá para checar a cotação sem contratar dado pago. O Brasil publica de graça, na base bruta do Comex Stat (MDIC), quanto foi pago em cada NCM, por mês e por país de origem, e a conta é uma divisão: valor FOB total ÷ quilograma líquido total, no seu código, na sua origem, na janela que interessa. Caso real, calculado por nós em 11/08/2026: em interruptores e comutadores para tensão não superior a 1.000 V (NCM 8536.50.90) vindos da China, os importadores brasileiros pagaram em média US$ 23,53/kg nos 12 meses até julho de 2026 (US$ 110,3 milhões sobre 4.687.804 kg). Uma cotação de US$ 19,00/kg está 19% abaixo disso, ou seja, é preço bom. O método vale pelo que quase todo mundo erra: a unidade estatística nem sempre é o quilo, a NCM pode ser um código guarda-chuva onde convivem produtos de US$ 0,10 e de US$ 9.316 por quilo, e a janela de 12 meses pode apontar para o lado oposto do mês corrente. E o número não é sentença: a base diz o que o país pagou, não o que o seu item vale.

1. O dado é público, gratuito e mais detalhado do que parece

A base bruta de importação do MDIC sai em CSV, um arquivo por ano, com dados desde 1997. O layout é este: CO_ANO; CO_MES; CO_NCM; CO_UNID; CO_PAIS; SG_UF_NCM; CO_VIA; CO_URF; QT_ESTAT; KG_LIQUIDO; VL_FOB; VL_FRETE; VL_SEGURO. Além do valor e do peso, você tem frete e seguro em colunas separadas, o que torna o VL_FOB diretamente comparável a uma cotação FOB de fábrica.

Quem preferir o painel usa o Comex Stat na web ou a API pública, com filtros por NCM, SH6, país, UF, via e unidade da Receita Federal. Um detalhe do painel: as métricas são Valor FOB (US$), Quilograma Líquido e Quantidade Estatística (esta só aparece com NCM no detalhamento). Não existe métrica pronta de "preço médio": você seleciona valor e peso e divide.

Duas coisas que a base não tem, e é melhor saber antes:

  • Não há nome nem CNPJ de importador. O MDIC não publica estatística que identifique empresas, por sigilo fiscal. A base responde "quanto o Brasil pagou", nunca "quanto o seu concorrente pagou".
  • Cada linha é um agregado mensal de NCM × país × UF × via × URF, não um embarque. Não dá para contar embarques nessa base, e qualquer ferramenta que diga o contrário está inventando.

Frequência: o ano corrente é reprocessado todo mês, e o reprocessamento anual de fevereiro congela o ano anterior. Na consulta de 11/08/2026 a página trazia "Últimos dados disponíveis: janeiro - julho de 2026", e os dados consolidados de julho saíram em 06/08/2026: o mês fechado entra na base na primeira semana do mês seguinte.

2. A conta, em quatro passos

  1. Fixe a NCM-8 certa. Errar o código invalida tudo o que vem depois, e é o erro mais comum. Se você ainda não tem certeza da classificação, resolva isso primeiro (ver catálogo de atributos para a DUIMP).
  2. Fixe a origem e a janela. Para importação, o país registrado é o país de origem, seguindo a recomendação internacional IMTS-2010 da ONU, e não o país de quem faturou. Compare China com China. Rode a janela em duas versões, 12 meses e 3 meses.
  3. Divida. Some VL_FOB e some KG_LIQUIDO de todas as linhas do seu NCM × origem × período, e divida um pelo outro. Isso é a média ponderada pelo peso: quem comprou mais quilos pesa mais na média, que é exatamente o que você quer quando a pergunta é "qual é o preço de mercado".
  4. Ponha a sua cotação na mesma régua. O VL_FOB da base é FOB. Se o fornecedor cotou EXW, você precisa somar a perna de origem antes de comparar; se cotou CIF, precisa tirar frete e seguro. Sem isso, você compara coisas diferentes (ver qual Incoterm pedir na primeira compra).

Bônus do mesmo arquivo: como VL_FRETE vem separado, a mesma consulta devolve o frete médio real daquela rota. Nos 12 meses até julho de 2026, origem China, rolamentos de esferas de carga radial (8482.10.10) tiveram frete médio de US$ 0,178/kg, equivalente a 3,7% do FOB, enquanto parafusos e pernos de ferro ou aço (7318.15.00) tiveram US$ 0,236/kg, equivalente a 10,7% do FOB. O frete por quilo é da mesma ordem de grandeza nos dois casos, mas pesa quase três vezes mais sobre o preço do parafuso, e é assim que densidade de valor aparece em número (ver MOQ e frete).

3. Três armadilhas que invertem a leitura

1. A unidade estatística nem sempre é o quilo. Cada NCM tem a sua, definida em tabela oficial. Em parafusos (7318.15.00) a unidade estatística é o quilograma líquido, então QT_ESTAT e KG_LIQUIDO são literalmente o mesmo número (55.711.356 em ambos, China, 12 meses até jul/2026) e não existe preço por parafuso nessa base. Já em rolamentos (8482.10.10) a unidade é número (unidade), então dá para ler os dois preços: US$ 4,86/kg e US$ 0,391 por peça (274.441.719 peças). Some-se a isso que 926.629 das 8.181.469 linhas de importação de 2023 a jul/2026 (11,3%) vêm sem peso líquido, o que representa apenas 0,5% do valor mas impede o cálculo por quilo naquelas linhas.

2. NCM guarda-chuva. Alguns códigos são cestas por construção. Em "Outras obras de plásticos" (3926.90.90), China, mesma janela, a média ponderada dá US$ 3,16/kg, mas as linhas individuais vão de US$ 0,10/kg a US$ 9.316/kg. Nesse código a média existe e não significa nada para uma peça específica. A dispersão é o teste: se as linhas do seu código se agrupam, a comparação é justa; se elas explodem, o número serve de contexto, não de veredito.

3. A janela pode apontar para o lado errado. Em polipropileno sem carga (3902.10.20), China, a média de 12 meses até julho de 2026 foi US$ 1,094/kg, e a de julho isolado foi US$ 1,369/kg. Uma cotação de US$ 1,30/kg parece 19% acima do mercado pelo número anual e está 5% abaixo do mês corrente. Em item de preço móvel, olhar só a janela longa produz o veredito contrário ao certo.

4. Um caso real, ponta a ponta

Cotação recebida: US$ 19,00/kg, FOB China, item classificado em 8536.50.90 (outros interruptores, seccionadores e comutadores para tensão não superior a 1.000 V).

O que os importadores brasileiros pagaram nessa NCM, origem China, nos 12 meses até julho de 2026: US$ 110.316.079 sobre 4.687.804 kg, ou US$ 23,53/kg de média ponderada. No nível dos últimos 3 meses, US$ 24,89/kg.

Veredito: a cotação está 19,3% abaixo da média de 12 meses e 23,7% abaixo do nível recente. É um preço bom, e essa também é uma resposta útil: o comprador para de negociar centavos e passa a gastar energia validando a especificação.

A leitura honesta do mesmo caso: esse código não é limpo. Nos 12 meses, as linhas individuais vão de US$ 0,29/kg a US$ 3.206/kg, com mediana de US$ 28,61/kg entre linhas (a mediana trata cada linha igual, a média ponderada pesa por quilo, e as duas respondem perguntas diferentes). Com essa dispersão, o veredito é direcional: serve para dizer "você não está sendo esfolado", não para cravar que o preço justo é US$ 23,53.

E se o resultado tivesse vindo 40% acima? Aí valem três hipóteses, nessa ordem: a sua especificação é superior à média do código, você está comprando de um intermediário e não da fábrica (ver fábrica ou trading company), ou o seu volume não tem escala para o preço de referência.

5. O que esse número não prova

  • Não é a cotação do seu item. A base mistura especificações, volumes, prazos e operações entre partes relacionadas, que seguem regra própria de preços de transferência.
  • Códigos sem fluxo não respondem. Item de nicho, NCM nova ou origem pouco usada podem não ter linhas suficientes. Aí o caminho é multi-cotação, não estatística.
  • Códigos sob antidumping têm base distorcida de propósito: o preço pago embute a medida em vigor (ver antidumping e ex-tarifário).
  • FOB não é custo. Vencer no FOB e perder no internado é rotina. A conta que decide é a de custo internado, e a comparação com o fornecedor nacional está em vale a pena importar.

6. Preço bom demais também é um sinal

O valor declarado na importação é, como regra, o valor de transação, primeiro método do Acordo de Valoração Aduaneira do GATT 1994, promulgado pelo Decreto nº 1.355/1994 e hoje regulamentado pela IN RFB nº 2.090/2022, que substituiu a antiga IN SRF nº 327/2003 (se você viu a 327 citada em algum lugar, a fonte está desatualizada). Pelo próprio acordo, um preço abaixo do corrente de mercado não é, sozinho, motivo suficiente para a fiscalização descartar o valor declarado: havendo dúvida, o importador é chamado a prestar informações e apresentar prova antes de o método ser afastado. Mas dúvida que não se resolva pode afastar o valor de transação, e havendo indício de fraude existe o procedimento de fiscalização de combate às fraudes aduaneiras da IN RFB nº 1.986/2020 (alterada pela IN RFB nº 2.268/2025), com a carga retida enquanto a apuração corre.

Tradução prática: cotação muito abaixo do que o Brasil paga naquele código é boa para a margem e é um dado a mais na sua avaliação de risco de canal. Guarde a documentação que sustenta o preço (proposta, contrato, comprovante de pagamento, ficha técnica) antes de embarcar, não depois (ver canais de parametrização).

7. O que fazer com o veredito

  • Acima da faixa: volte a campo com o número na mão. Multi-cotação com fábricas comparáveis é o que derruba preço, e saber quanto o Brasil paga naquele código muda o tom da conversa. Antes, confirme se o seu fornecedor é fabricante.
  • Dentro da faixa: o ganho não está no preço unitário. Está em consolidação de carga, lote, prazo de pagamento e tributos, nessa ordem.
  • Abaixo da faixa: valide a especificação antes de comemorar, e organize a documentação de valor.

Perguntas frequentes

Preciso pagar por dado de importação para fazer isso?
Não. A base bruta do Comex Stat e o painel do MDIC são gratuitos e cobrem NCM, país, UF, via e unidade da Receita, com dados desde 1997. Os dados pagos vendem outra coisa: identificação de empresas.
Consigo ver quanto o meu concorrente pagou?
Não por essa via, e por lei. O MDIC não publica estatística que revele nomes ou CNPJ, por sigilo fiscal. O que existe é o agregado por NCM.
Qual janela devo usar?
As duas. Rode 12 meses para o nível estrutural e 3 meses para o mercado de hoje, e desconfie quando elas discordam muito: isso é sinal de preço em movimento, não de erro de cálculo.
O preço da base inclui frete?
Não. VL_FOB é o valor da mercadoria, com VL_FRETE e VL_SEGURO em colunas próprias. Por isso ele compara direto com uma cotação FOB, e por isso o frete médio da rota sai do mesmo arquivo.
Meu código não tem fluxo suficiente. E agora?
Duas saídas: comparar no SH6 (mais agregado, menos preciso) para ter ordem de grandeza, ou resolver por multi-cotação com fábricas comparáveis. A segunda dá mais trabalho e é a que responde de verdade.
Isso substitui negociar?
Não. Substitui negociar no escuro. O número diz se existe espaço; quem abre o espaço é a concorrência entre fornecedores qualificados.

Glossário

Comex Stat
sistema oficial do MDIC de divulgação das estatísticas de comércio exterior brasileiro, com painel, API e base bruta em CSV.
NCM
Nomenclatura Comum do Mercosul, código de 8 dígitos, sendo os 6 primeiros o Sistema Harmonizado e os 2 últimos o desdobramento do Mercosul.
Valor FOB
valor da mercadoria na origem, sem frete e sem seguro internacionais.
Quantidade estatística
quantidade na unidade oficial daquele NCM (quilo, unidade, par, metro, litro e outras), campo QT_ESTAT.
País de origem
onde a mercadoria foi produzida, critério usado nas estatísticas de importação, diferente do país de quem faturou.
Média ponderada
soma dos valores dividida pela soma das quantidades, de forma que operações maiores pesam mais.
Mediana
valor que divide a amostra ao meio, com metade das observações acima e metade abaixo.
Valor de transação
preço efetivamente pago ou a pagar pela mercadoria importada, primeiro método de valoração aduaneira.
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