Análise do mêsjulho/2026

A estabilidade do índice em julho é enganosa: por trás dela, duas forças opostas se anulam. Os preços cobrados por cada origem subiram, mas o importador brasileiro trocou ativamente de fornecedor, migrando compras para origens mais baratas — e nunca foi tão barato experimentar. O frete Ásia–Santos segue em queda (a capacidade na rota mais que dobrou em três anos e as tarifas caminham para US$ 2.500–3.500 por contêiner de 40 pés no semestre), e o real, entre as moedas que mais se valorizaram no mundo em 2026 (Selic a 14,75% contra 3,5–3,75% nos EUA), amplia o poder de barganha de quem compra em dólar. A janela para renegociar origem e contrato está aberta; ela não ficará aberta para sempre.

Dois grupos pedem atenção no segundo semestre. Em fertilizantes, a Rússia limitou as exportações a 20 milhões de toneladas até novembro e o MAP já acumula alta de 13% no ano (~US$ 720/t) — com o Brasil tendo garantido só 40–45% da necessidade de 2026/27, a recomposição de estoques vai encontrar oferta contida. Em resinas, o paradoxo é doméstico: sobra oferta no mundo (a China tornou-se autossuficiente em polipropileno e o preço asiático ronda US$ 1,22/kg), mas o preço interno saltou cerca de 50% no ano e a Braskem pleiteia elevar o antidumping sobre o PP americano de US$ 199 para perto de US$ 700 por tonelada. Quem depende de resina importada está comprando o risco regulatório junto com o material — vale precificar os dois.

O pano de fundo geopolítico piorou. Os EUA aplicaram em 22 de julho tarifa de 25% (Seção 301) sobre cerca de um quarto da pauta exportadora brasileira, e Brasília acionou em agosto a Lei de Reciprocidade, abrindo 60 dias de consultas antes de eventual retaliação. Até aqui, nenhum produto americano ficou mais caro no Brasil — mas, se a retaliação vier, insumos de origem americana (químicos, farmacêuticos, equipamentos) entram na linha de tiro pela primeira vez. Para quem tem os EUA como origem relevante, mapear alternativas antes do fim dessa janela, no início de outubro, deixou de ser precaução excessiva e virou gestão básica de risco.

Análise editorial da Tandom, escrita a cada fechamento mensal com base nos dados do índice e em fontes públicas de mercado. Não é recomendação de compra.

Correções

  • boa parte da pauta brasileira → cerca de um quarto da pauta exportadora
  • em meados de outubro → no início de outubro
  • Onde se lê polipropileno (PP), leia-se polietileno (PE). O direito vigente era US$ 199,04/t; a reportagem de 24/07 informava que a Braskem pressionava por valor próximo de US$ 700/t.
  • Cerca de um quarto (23,1%) era o alcance combinado das duas novas medidas sobre as exportações brasileiras aos EUA; a tarifa de 25% isolada alcançava 18,4%.
  • O Decreto 12.551 não criou 60 dias de consultas nem fixou prazo no início de outubro; previu relatório em até 30 dias, prorrogável por mais 30, seguido de etapas próprias.